segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Turn It Off

Eu sempre soube que não estava funcionando. Te via infeliz, se arrastando pelos cantos como um animal abandonado. Faltava afeto. Sim, faltava, mas você nunca soube dar e merecer receber. Eu também queria, assim como você, que desse certo. E, apesar de tudo, eu lutei.
Lutei com todas as minhas forças pra te fazer feliz. Usei tudo o que me restava de energia e contentamento. Me iludi. Pensei que, finalmente, tudo voltaria a ser como antes, mas não. E a cada passo que eu dava, chegava perto do abismo, mas chegava feliz, porque, por pior que parecesse, eu estaria melhor ao colidir com o fundo e ver que tudo acabou.
"E a pior parte é que antes que melhorasse um pouco, estávamos indo em direção ao fim."


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Soledad

Vê-lo descer aqueles degraus amarelados era um dos meus passatempos favoritos. Não sei o que me levava a gostar de fazê-lo, talvez seu aticismo ou sua aura de Tom Ford, ou até mesmo ambos, só sei que havia algo de esplendoroso em vê-lo em uma ação tão simples. Costumávamos andar pelo seu jardim alexândrico por horas, conversando e sonhando com realidades próximas do impossível, mas toda vez que eu tocava sua mão o impossível se tornava tênue e eu me sentia esperançoso, me obrigando a permanecer naquele ciclo vicioso que, paulatinamente, me consumia por inteiro.
Mas como todo romance proibido, depois da bonança eu sentia uma tempestade de sentimentos álvaros me ocupando, me mostrando a verdade da pior maneira e, depois do crepúsculo, ela chegava como a noite, sombria e austera, tomando de mim o que eu tinha de melhor: ele.
Algo sempre me disse que eu deveria tomar uma atitude, seguir em frente ou fazer ele tomar uma decisão, mas sempre pensei que eu nunca poderia dar o que ela tinha capacidade de fazer por ele, mesmo que eu quisesse, sempre seria menor. E o ciclo mais uma vez se repetia, a não ser pela minha vontade de tê-lo que crescia cada vez mais.

Cegueira ou lucidez

E ali, deitado naquela cama, instável, eu fitava seus olhos com a seriedade de quem analisa a alma. Não sei se era Munch naquele mar de listras bicolores, mas algo me fazia querer saber o que se passava na mente dele, saber se ele sentia o mesmo que eu, e, mesmo tendo ideia do impossível, eu esperava por um sinal. 
Fazia pouco tempo que o conhecia, nem mesmo um inverno, mas eu tinha quase certeza do que se passava no meu âmago, e não era simples. Dois meses e eu já conhecia toda a extensão de seu lar, desde a escada de madeira ocre desgastada com o tempo de existência àquela caixa repleta de plumas que por meros sessenta dias havia sido o centro da minha felicidade, e mesmo assim eu sabia que aquele nunca seria meu lugar, eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu teria de levantar  e ir, pois eu era apenas mais uma brisa que voltava quando a Noite surgia com sua altivez e propriedade.

domingo, 28 de agosto de 2011

Sempre há mais um dia

Não sei se você já esteve na minha situação, mas eu digo pra você que não é simples.
Eu tenho uma amiga muito próxima. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu assumi minha homossexualidade e ela significa muito pra mim. Um tempo depois eu contei pra mais duas amigas, que também ficaram muito próximas de mim. O problema é que eu acho que eu não sei dar atenção igualmente para as três, e você sabe que ciúmes existem. E ultimamente aconteceram várias intrigas por causa disso.
Eu só falei isso tudo porque eu me sinto culpado em parte por causa das brigas que acontecem. Não é fácil. Você pode até achar que por a briga não ser comigo é fácil de lidar. Não. Não se o sentimento de culpa estiver todo com você.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fairy Tales

Eu costumava acreditar que tudo era como nos filmes que a gente vê ainda quando é criança. Finais felizes, casais felizes, e aquele happy ever after de sempre. Mas quando você cresce e começa a conhecer o mundo como ele realmente é, você descobre que não é bem assim.
Ninguém vai parar tudo pra olhar pra você e dizer que sente muito - "O mundo não para por causa de mais um coração partido." - A vida é selvagem, quer você queira ou não, e cabe a você decidir se vai lutar ou ficar de braços cruzados esperando um milagre como tanta gente faz. Você não acerta se não errar algumas vezes, e aquela pessoa especial por quem você tanto espera não vai aparecer do nada. É preciso atitude. É preciso atitude para poder sobreviver num mundo onde tudo tem disputa, seja por dinheiro ou seja por amor, e não se pode apenas ficar parado e desejando que venha alguém e faça tudo isso por você.
"Quando éramos crianças, fomos ensinados que as pessoas são boas, que a solidariedade prevalece, e que o bem sempre vence, e, assim como nossas histórias infantis, hoje sabemos que isso tudo não passa de apenas mais um conto de fadas."

terça-feira, 28 de junho de 2011

Solitudine

Sabe aqueles dias em que você se sente tão pra baixo que às vezes acha que não vai passar? É, eu vivo neles. Acho que às vezes faz parte da vida, mas me sinto sozinho na maioria do tempo. Eu tenho muitos amigos, e sabendo disso você deve estar dizendo que não tenho motivo pra estar assim. Mas eu tenho. Se sentir só não depende apenas dos seus amigos. Eu sinto falta de alguém que me ouça, alguém que me entenda, alguém que me faça feliz, sabe? Todo mundo pensa que porque você é gay você quer sair por aí ficando com todo mundo, e não é bem por aí. Às vezes você só quer uma pessoa pra uma relação séria, porque assim você teria alguém pra conversar e vivenciar os momentos bons da vida. Já chorei muito por causa disso, e vou chorar sempre que preciso, pois segurar lágrimas não faz bem nenhum. Todo mundo tem o direito de ser triste, porque às vezes uma falsa alegria não melhora nada, pelo contrário, só piora.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Coming Out

Ultimamente o assunto dos grupos LGBT está sendo tocado tanto que muita gente acha que é clichê demais. Eu digo que não. Semana passada eu, digamos, 'saí do armário', e não é tão fácil quanto parece. A sensação de que todo mundo vai te julgar e ninguém vai mais nem querer olhar na sua cara é horrível. Mas foi diferente. Todos me apoiaram - mesmo que apoiar não signifique aceitar - e acabou que foi mais um dia bom na minha vida.
Eu sei que muita gente condena a união entre casais homossexuais - principalmente a igreja - mas ninguém procura entender. A homossexualidade não é algo que possa ser chamado de opção sexual, porque, primeiramente, não é opção. Ou você acha que aquele seu colega que é escrachado por todos escolheu ser assim? Até a minha mãe não entende isso, e, por sinal, tenho que conversar com ela. A orientação sexual é algo natural, seja você hétero ou homo, porque existem até animais selvagens que tem hábitos homossexuais, como leões e pássaros.
Eu sempre soube que eu era gay e os outros saberem disso era só uma questão de tempo. Mas eu tinha medo do que iria acontecer, pois minha família é muito religiosa e conservadora, e o Brasil é um dos países mais homofóbicos do mundo. Mesmo assim ainda quero ter um relacionamento duradouro - com outro cara, claro - e me casar, porque o casamento civil entre homossexuais não está tão longe quanto se pensa.
Bom, e pra terminar, acho que subestimei o amor que as pessoas têm por mim. E ninguém deveria fazer isso. Ser você mesmo é algo tão libertante que não consigo explicar. Não preciso mais fingir que gosto de uma garota para as pessoas me acharem 'normal', e as pessoas falam comigo do mesmo jeito. Meu círculo de amizades me ama mais que nunca, e minha família continua 'quase' a mesma - porque nem todo mundo vai te apoiar, saiba disso - comigo. Mas mesmo assim, viver livre é bom demais.
Song:  Someone Somewhere - Jason Reeves