E ali, deitado naquela cama, instável, eu fitava seus olhos com a seriedade de quem analisa a alma. Não sei se era Munch naquele mar de listras bicolores, mas algo me fazia querer saber o que se passava na mente dele, saber se ele sentia o mesmo que eu, e, mesmo tendo ideia do impossível, eu esperava por um sinal.
Fazia pouco tempo que o conhecia, nem mesmo um inverno, mas eu tinha quase certeza do que se passava no meu âmago, e não era simples. Dois meses e eu já conhecia toda a extensão de seu lar, desde a escada de madeira ocre desgastada com o tempo de existência àquela caixa repleta de plumas que por meros sessenta dias havia sido o centro da minha felicidade, e mesmo assim eu sabia que aquele nunca seria meu lugar, eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu teria de levantar e ir, pois eu era apenas mais uma brisa que voltava quando a Noite surgia com sua altivez e propriedade.
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